terça-feira, 27 de maio de 2008
Pedalar até ao emprego
Hoje tomei coragem e fui de bicicleta para o trabalho. O caminho dura cerca de 10 minutos e é praticamente plano. Mesmo assim, levei capacete. Isto na cidade nunca se sabe e eu nao quero morrer de hemorragia interna apos bater com a tola no chao. A hora do almoço peguei no meu tupperware e ciclei até a um pequeno parque no centro da cidade. Nunca pedalei no meio de tanto automovel e confesso que fiquei um pouco nervosa. Nunca fui famosa pelo meu sentido de orientaçao e ainda nao consegui perceber em que ruas as bicicletas sao permitidas. Mas sobrevivi. É uma doce sensaçao, nao depender de transportes publico para chegar a casa. Gostei e vou repetir.
domingo, 25 de maio de 2008
Um pedacinho de Eça
O visconde Reinaldo, que batia com os pés nas lajes, rosnou de dentro da sua peliça:
- É verdade, aqui estamos outra vez na pocilga!
Mas àquela hora?
- A que horas queria voce que chegassemos? Às horas da tabela, talvez! Doze horas de atraso, essa bagatela! Em Portugal é quase nada...
- Houve algum transtorno? - perguntava o criado com solicitude, seguindo-os pela escada.
E Reinaldo, pisando com um pé nervoso o esparto do corredor:
- O transtorno nacional! Descarrilou tudo! Estamos aqui por milagre! Abjecto pais!... - E desabafava a sua colera com o criado: te-la-ia desbafado com as pedras da rua, tanto era o excesso da bilis: - Ha um ano que a minha oraçao é esta: "Meu Deus, manda-lhe outra vez o terramoto!" Pois todos os dias leio os telegramas a ver se o terramoto chegou... e nada! Algum ministro que cai, ou algum barao que surge. E de terramoto nada! O Omnipotente faz ouvidos de mercador as minhas preces... Protege o pais! Tao bom é um como outro! - E sorria, vagamente reconhecido a uma naçao cujos defeitos lhe forneciam tantas pilhérias.
Mas quando o criado, muito consternado, lhe declarou que nao havia senao um salao e uma alcova com duas camas, no terceiro andar - a colera de Reinaldo nao conheceu restriçoes:
- Entao havemos de dormir no mesmo quarto? Voce pensa que o Sr.D.Basilio é meu amante, seu devasso? Esta tudo cheio? Mas quem diabo se lembra de vir a Portugal? Estrangeiros? É justamente o que me espanta! - E encolhendo os ombros com rancor: - É o clima, é o clima que os atrai! O clima, este prodigioso engodo nacional! Um clima pestifero. Nao ha nada mais reles que um bom clima!...
O Primo Basilio
Eça de Queiroz
- É verdade, aqui estamos outra vez na pocilga!
Mas àquela hora?
- A que horas queria voce que chegassemos? Às horas da tabela, talvez! Doze horas de atraso, essa bagatela! Em Portugal é quase nada...
- Houve algum transtorno? - perguntava o criado com solicitude, seguindo-os pela escada.
E Reinaldo, pisando com um pé nervoso o esparto do corredor:
- O transtorno nacional! Descarrilou tudo! Estamos aqui por milagre! Abjecto pais!... - E desabafava a sua colera com o criado: te-la-ia desbafado com as pedras da rua, tanto era o excesso da bilis: - Ha um ano que a minha oraçao é esta: "Meu Deus, manda-lhe outra vez o terramoto!" Pois todos os dias leio os telegramas a ver se o terramoto chegou... e nada! Algum ministro que cai, ou algum barao que surge. E de terramoto nada! O Omnipotente faz ouvidos de mercador as minhas preces... Protege o pais! Tao bom é um como outro! - E sorria, vagamente reconhecido a uma naçao cujos defeitos lhe forneciam tantas pilhérias.
Mas quando o criado, muito consternado, lhe declarou que nao havia senao um salao e uma alcova com duas camas, no terceiro andar - a colera de Reinaldo nao conheceu restriçoes:
- Entao havemos de dormir no mesmo quarto? Voce pensa que o Sr.D.Basilio é meu amante, seu devasso? Esta tudo cheio? Mas quem diabo se lembra de vir a Portugal? Estrangeiros? É justamente o que me espanta! - E encolhendo os ombros com rancor: - É o clima, é o clima que os atrai! O clima, este prodigioso engodo nacional! Um clima pestifero. Nao ha nada mais reles que um bom clima!...
O Primo Basilio
Eça de Queiroz
sábado, 24 de maio de 2008
Milano
segunda-feira, 19 de maio de 2008
Participaçao vs Letargia
A Suiça tem a peculiaridade de possuir um sistema politico que, apesar de mais complicado, é muito, mas mesmo muito participativo. Para começar, convem recordar que a Suiça divide-se em cantoes. É como um Estados Unidos em ponto pequeno, os cantoes teem bastante autonomia embora façam parte de um unico nivel nacional. Por ano fazem-se varios referendos, consultando a populacao nas mais diversas matérias (quanto à existencia de um unico ou de varios seguros de saude, à legalizaçao das drogas leves, etc). O voto pode ser exercido quer pessoalmente, quer por correio, ou ainda pela internet. Pelo que tenho sabido, por aqui faz-se muito pouco sem o consentimento do povo e parece-me até que as pessoas se encontram extremamente bem informadas quando exercem o seu direito de voto.
Se ainda nao ficou claro, é para mim inacreditavel que no nosso pais se tomem decisoes , assentes nas contribuiçoes e nos impostos suados de todos nos (embora nos meus felizmente jà nao), sem nunca sermos consultados. A médio prazo, os efeitos destas decisoes terao repercussoes nos nossos direitos basicos. Teremos, por exemplo, acesso (pago) a uma nova ponte sobre o Tejo, cuja real necessidade ainda esta por provar, sem termos acesso a bons cuidados de saude num hospital publico.
Aqui ha um par de anos atras duas amigas minhas, de quem gosto muito, esquivaram-se a ir votar nas autarquicas. Uma nao quis e a outra nao teve vontade de apanhar um autocarro ao Domingo. Lembro-me de ter uma discussao acesa com elas porque nao conseguia perceber como nao podiam exercer o seu unico acto participativo, num sistema eleitoral tao pobre em participaçao. So quem vota é que se pode queixar do estado das coisas, quem nao vota cruza os braços e acena afirmativamente com a cabeça. E essa é uma diferença abissal.
Se ainda nao ficou claro, é para mim inacreditavel que no nosso pais se tomem decisoes , assentes nas contribuiçoes e nos impostos suados de todos nos (embora nos meus felizmente jà nao), sem nunca sermos consultados. A médio prazo, os efeitos destas decisoes terao repercussoes nos nossos direitos basicos. Teremos, por exemplo, acesso (pago) a uma nova ponte sobre o Tejo, cuja real necessidade ainda esta por provar, sem termos acesso a bons cuidados de saude num hospital publico.
Aqui ha um par de anos atras duas amigas minhas, de quem gosto muito, esquivaram-se a ir votar nas autarquicas. Uma nao quis e a outra nao teve vontade de apanhar um autocarro ao Domingo. Lembro-me de ter uma discussao acesa com elas porque nao conseguia perceber como nao podiam exercer o seu unico acto participativo, num sistema eleitoral tao pobre em participaçao. So quem vota é que se pode queixar do estado das coisas, quem nao vota cruza os braços e acena afirmativamente com a cabeça. E essa é uma diferença abissal.
domingo, 18 de maio de 2008
Euro 08
Como é amplamente conhecido, o Euro 2008 vai ter lugar aqui. O processo de aquisicao de bilhetes e algo complexo. Concorre-se e, com alguma sorte, é concedida a opcao de adquirir bilhetes para um jogo aleatorio. Por mais que me deixasse feliz ver um jogo de Portugal, vou ter de contentar-me com o Suica-Turquia. Estou a pensar se hei-de ir ao jogo vestida de adepta lusa ou se devo passar mais despercebida. Considero ainda se hei-de comprar a bandeirinha e expo-la, juntando-me assim ao pessoal imigrante na Suica. A ver.
Update
Na sexta-feira terminei finalmente o concurso para a extensao do jardim zoologico. A semana pareceu infindavel e, para culminar, nao dormi de quinta para sexta. Senti uma comocaozinha aquando do fim dado que, se tudo correr bem, nao terei de voltar a olhar para o bendito projecto. Vim para casa a hora do almoco de sexta feira, fui de bicicleta as compras e quando regressei a casa corri os estores e fingi que nao existia mais, pelo menos durante algumas horas.
Hoje fui até Winterthur visitar um par de exposicoes de fotografia. Uma sobre Paris no final do seculo XIX/inicio do seculo XX e a outra sobre a Suica durante os anos 30/40/50. Senti uma certa melancolia por uma existencia menos complexa e porventura mais satisfatoria, embora fisicamente muito mais extenuante. Numa das fotos de Paris, um cartaz anunciava "la poudre perlinpinpin". Pergunto-me se sera o mesmo pozinho magico de que ouvimos falar enquanto criancas e onde se vendera por estes dias. Tambem vi algumas fotos de bordeis e prostitutas parisienses, sem duvida um dos pontos altos da exposicao.
Hoje faz anos uma das minhas amigas, que conheco desde que sou gente. Aturou-me (e atura-me) os maus genios, apoia a minha familia na minha ausencia. Faz parte da casa, portanto. Aqui deixo os meus mais sinceros desejos de muitas felicidades.
Hoje fui até Winterthur visitar um par de exposicoes de fotografia. Uma sobre Paris no final do seculo XIX/inicio do seculo XX e a outra sobre a Suica durante os anos 30/40/50. Senti uma certa melancolia por uma existencia menos complexa e porventura mais satisfatoria, embora fisicamente muito mais extenuante. Numa das fotos de Paris, um cartaz anunciava "la poudre perlinpinpin". Pergunto-me se sera o mesmo pozinho magico de que ouvimos falar enquanto criancas e onde se vendera por estes dias. Tambem vi algumas fotos de bordeis e prostitutas parisienses, sem duvida um dos pontos altos da exposicao.
Hoje faz anos uma das minhas amigas, que conheco desde que sou gente. Aturou-me (e atura-me) os maus genios, apoia a minha familia na minha ausencia. Faz parte da casa, portanto. Aqui deixo os meus mais sinceros desejos de muitas felicidades.
domingo, 11 de maio de 2008
segunda-feira, 5 de maio de 2008
A proposito
Hoje foi noticia de capa do DN a emigracao portuguesa que, segundo consta, aumentou em cerca de 50% nos ultimos anos. Os principais paises de destino sao a Suica, Andorra, Luxemburgo e Franca. Queria aqui citar parte da noticia e o link da mesma, mas o site do jornal nao esta a colaborar esta noite.
No editorial o director comenta a noticia, lembrando o facto de a emigracao existir sobretudo nos paises mais fragilizados (ja nao me lembro de qual a palavra utilizada, mas deixo aqui esta, que soa gentil). Claro que se trata de um movimento assente na ausencia de conforto economico. Mas mais do que isso, na falta de oportunidades e de condicoes. E um facto que duas pessoas com a mesma formacao e nacionalidades distintas (digamos portuguesa e suica, so porque eu quero), tem opcoes, direitos, deveres e salarios bastante diferentes.
Finalmente consegui. Aqui fica o link.
No editorial o director comenta a noticia, lembrando o facto de a emigracao existir sobretudo nos paises mais fragilizados (ja nao me lembro de qual a palavra utilizada, mas deixo aqui esta, que soa gentil). Claro que se trata de um movimento assente na ausencia de conforto economico. Mas mais do que isso, na falta de oportunidades e de condicoes. E um facto que duas pessoas com a mesma formacao e nacionalidades distintas (digamos portuguesa e suica, so porque eu quero), tem opcoes, direitos, deveres e salarios bastante diferentes.
Finalmente consegui. Aqui fica o link.
domingo, 4 de maio de 2008
Gostei deste bocadinho
Houve aqui ha uns anos um profundo e cavo filosofo dalém-Reno que escreveu uma obra sobre a marcha da civilizacao, do intelecto - o que diriamos, para nos entenderem todos melhor, o progresso.
Descobriu ele que ha dois principios no mundo: o espiritualista, que marcha sem atender a parte material e terrena desta vida, com os olhos fitos em suas grandes e abstractas teorias, hirto, seco, duro, inflexivel, e que pode bem personalizar-se, simbolizar-se pelo famoso mito do Cavaleiro da Mancha, D. Quixote; o materialista, que, sem fazer caso nem cabedal dessas teorias, em que nao crê, e cujas impossiveis aplicacoes declara todas utopias, pode bem apresentar-se pela rotunda e anafada presenca do nosso amigo velho, Sancho Panca.
Mas, como na historia do malicioso Cervantes, estes dois principios tao avessos, tao desencontrados, andam contudo juntos sempre; ora um mais atras, ora outro mais adiante, empecendo-se muitas vezes, coadjuvando-se poucas, mas progredindo sempre.
Viagens na minha terra
Almeida Garrett
Descobriu ele que ha dois principios no mundo: o espiritualista, que marcha sem atender a parte material e terrena desta vida, com os olhos fitos em suas grandes e abstractas teorias, hirto, seco, duro, inflexivel, e que pode bem personalizar-se, simbolizar-se pelo famoso mito do Cavaleiro da Mancha, D. Quixote; o materialista, que, sem fazer caso nem cabedal dessas teorias, em que nao crê, e cujas impossiveis aplicacoes declara todas utopias, pode bem apresentar-se pela rotunda e anafada presenca do nosso amigo velho, Sancho Panca.
Mas, como na historia do malicioso Cervantes, estes dois principios tao avessos, tao desencontrados, andam contudo juntos sempre; ora um mais atras, ora outro mais adiante, empecendo-se muitas vezes, coadjuvando-se poucas, mas progredindo sempre.
Viagens na minha terra
Almeida Garrett
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