domingo, 25 de maio de 2008

Um pedacinho de Eça

O visconde Reinaldo, que batia com os pés nas lajes, rosnou de dentro da sua peliça:
- É verdade, aqui estamos outra vez na pocilga!
Mas àquela hora?
- A que horas queria voce que chegassemos? Às horas da tabela, talvez! Doze horas de atraso, essa bagatela! Em Portugal é quase nada...
- Houve algum transtorno? - perguntava o criado com solicitude, seguindo-os pela escada.
E Reinaldo, pisando com um pé nervoso o esparto do corredor:
- O transtorno nacional! Descarrilou tudo! Estamos aqui por milagre! Abjecto pais!... - E desabafava a sua colera com o criado: te-la-ia desbafado com as pedras da rua, tanto era o excesso da bilis: - Ha um ano que a minha oraçao é esta: "Meu Deus, manda-lhe outra vez o terramoto!" Pois todos os dias leio os telegramas a ver se o terramoto chegou... e nada! Algum ministro que cai, ou algum barao que surge. E de terramoto nada! O Omnipotente faz ouvidos de mercador as minhas preces... Protege o pais! Tao bom é um como outro! - E sorria, vagamente reconhecido a uma naçao cujos defeitos lhe forneciam tantas pilhérias.
Mas quando o criado, muito consternado, lhe declarou que nao havia senao um salao e uma alcova com duas camas, no terceiro andar - a colera de Reinaldo nao conheceu restriçoes:
- Entao havemos de dormir no mesmo quarto? Voce pensa que o Sr.D.Basilio é meu amante, seu devasso? Esta tudo cheio? Mas quem diabo se lembra de vir a Portugal? Estrangeiros? É justamente o que me espanta! - E encolhendo os ombros com rancor: - É o clima, é o clima que os atrai! O clima, este prodigioso engodo nacional! Um clima pestifero. Nao ha nada mais reles que um bom clima!...


O Primo Basilio
Eça de Queiroz

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