domingo, 4 de maio de 2008

Gostei deste bocadinho

Houve aqui ha uns anos um profundo e cavo filosofo dalém-Reno que escreveu uma obra sobre a marcha da civilizacao, do intelecto - o que diriamos, para nos entenderem todos melhor, o progresso.

Descobriu ele que ha dois principios no mundo: o espiritualista, que marcha sem atender a parte material e terrena desta vida, com os olhos fitos em suas grandes e abstractas teorias, hirto, seco, duro, inflexivel, e que pode bem personalizar-se, simbolizar-se pelo famoso mito do Cavaleiro da Mancha, D. Quixote; o materialista, que, sem fazer caso nem cabedal dessas teorias, em que nao crê, e cujas impossiveis aplicacoes declara todas utopias, pode bem apresentar-se pela rotunda e anafada presenca do nosso amigo velho, Sancho Panca.

Mas, como na historia do malicioso Cervantes, estes dois principios tao avessos, tao desencontrados, andam contudo juntos sempre; ora um mais atras, ora outro mais adiante, empecendo-se muitas vezes, coadjuvando-se poucas, mas
progredindo sempre.

Viagens na minha terra
Almeida Garrett

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